Quando a estética enxerga além do espelho
Em Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago narra uma epidemia misteriosa que faz as pessoas perderem a visão. Mas o que mais impressiona não é a cegueira física, e sim a cegueira interior, a incapacidade de enxergar o outro, a falta de consciência e cuidado com o essencial.
Na medicina estética, às vezes essa metáfora se repete.
Entre tantas promessas de rejuvenescimento imediato, é possível perder de vista o que realmente importa: a segurança, a naturalidade e a vida que habita em cada olhar.
O artigo científico “Ophthalmic Complications of Injectable Facial Fillers” (2024) é um alerta importante. Ele revisa casos raros, mas graves, em que o uso de preenchedores faciais resultou em complicações oftálmicas severas, incluindo perda parcial ou total da visão. Esses episódios ocorrem quando o material injetável (normalmente ácido hialurônico ou gordura) atinge acidentalmente uma artéria ligada ao olho, provocando obstrução e isquemia.
Ainda que esses casos sejam extremamente incomuns, eles nos lembram que cada aplicação estética é também um ato médico e que a beleza não pode ser cega à responsabilidade.
Ciência com consciência
A medicina estética moderna precisa unir técnica e ética.
A escolha do produto, o domínio anatômico e a sensibilidade do profissional são decisivos para garantir segurança e harmonia.
Mas tão importante quanto isso é o olhar: ver o paciente como um ser inteiro, não apenas como um rosto a ser moldado.
Em Ensaio sobre a Cegueira, Saramago escreve:
“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos. Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.”
Na estética, essa frase é quase um manifesto.
Não basta ver o resultado no espelho. É preciso enxergar o propósito, a história, a emoção que habita por trás de cada expressão.
A beleza que preserva a visão
Em meu trabalho, acredito que a estética deve devolver clareza, não ilusão.
Deve aprimorar, não mascarar.
Cada olhar que atendo é único e deve continuar sendo.
Optar por técnicas seguras, produtos reversíveis e resultados naturais é um ato de amor e de lucidez.
Porque enxergar a beleza verdadeira é também um exercício espiritual: é ver com os olhos do coração.
Que nunca percamos a visão do que realmente importa.
Com carinho e amor,
Dr. Diogo Rabelo
