Things in Nature Merely Grow...

O sujeito dividido e a falta

Para Jacques Lacan, o sujeito é marcado pela falta — é no vazio que se estrutura o desejo e se define o eu. No livro, Li relata a perda imensa de seus dois filhos por suicídio. The Guardian+2chireviewofbooks.com+2 Essa perda radical expõe o sujeito à desconstrução de seu “eu” imutável: quem era mãe-de-dois torna-se mãe no vazio da ausência. Essa tensão entre “ser” e “não mais ser” é central na obra.

O título “Things in Nature Merely Grow” sugere um processo orgânico, inevitável — e ao mesmo tempo uma força externa que segue independente da subjetividade humana. Lacan falaria que o Real irrompe aqui: aquilo que resiste à simbolização, ao discurso, ao nome-do-pai, ao laço. A morte dos filhos encarna esse Real que “não tem lugar”, que escapa da lógica do sentido e do significado confortável.

O simbólico, o imaginário e o real na narrativa

  • O Simbólico: A linguagem que Li escolhe — precisa, concisa, quase clínica — reflete uma tentativa de dar forma à dor insuportável. Ela busca “fazer o que funciona” (“doing the things that work”) como resposta ao trauma. National Book Foundation

  • O Imaginário: Há imagens que operam como espelhos: o jardim, a escrita, o piano. São tentativas de construir um “eu” que ainda existe apesar da devastação. O “eu mãe” tenta manter continuidade.

  • O Real: A morte, o suicídio, o abismo da pergunta: “Por que?”, “Para quê?”. São aquilo que escapa à linguagem plenamente. O livro está repleto de silêncio, de fissuras entre o que se pode dizer e o que permanece indizível. chireviewofbooks.com

Lacan ensinou que o trauma é uma barreira entre o sintoma e o sentido — a maneira como a subjetividade tenta dar conta daquilo que aconteceu. Li não oferece consolação fácil; ela aceita que o ponto final não existe — “there is no now and then, now and later, only, now and now and now and now.” National Book Foundation

A função do Outro e o laço social

Na obra, Li também aborda o olhar da sociedade, o que se espera da mãe, o silêncio em torno do suicídio, a vergonha e o estigma. Isso remete ao conceito lacaniano do Outro (com “O” maiúsculo) — aquele lugar simbólico do Outro que julga, exige, observa. O sujeito mãe está à mercê desse olhar e simultaneamente fora dele, pois o que vive não se inscreve como norma. A “maternidade que falha” pelo suicídio embate com o discurso cultural da proteção incondicional.

Relação com tempo, ausência e continuidade

Lacan falava do sujeito como algo que se constitui no tempo, mas que nunca se completa: o desejo é sempre “mais-um”. No livro, Li desafia a ideia de “ciclo de luto encerrado” e insiste numa continuidade aberta da dor — a maternidade que permanece, apesar da ausência. A frase “The verb that does not die is to be” National Book Foundation reflete uma existência que persiste, que resiste ao fechamento.

Reflexão sobre "e eu com isso?"

Transpondo essa análise para o contexto do cidadão brasileiro, encontramos ecos poderosos. O Brasil, como muitos países, convive com dívidas simbólicas — desigualdades, violência, falência de promessas públicas e individuais. Assim como Li enfrenta o buraco do trauma e a tarefa de existir no vazio, o cidadão brasileiro muitas vezes se encontra diante de uma lacuna entre o ideal de “ser país desenvolvido, justo e digno” e a realidade cotidiana que falha em entregar.

Há, em muitos brasileiros, uma maternidade ou paternidade simbólica que tenta “proteger” ou “preservar”, mas que vive sob o signo da falta: falta de segurança, falta de oportunidades, falta de reconhecimento. Como Li, o brasileiro pode descobrir que não há “boa maneira de dizer isso” — a frustração, o abandono, a dor coletiva são difíceis de serem plenamente simbolizados.

Contudo, assim como o livro revela um caminho de existência apesar do abismo, há no cidadão brasileiro a possibilidade de “fazer o que funciona” — resistir, reconstruir seu laço social, cultivar o que ainda é possível. A estética do país — sua identidade, cultura, resiliência — pode refletir essa persistência: “to be” frente ao risco de “não mais ser”.

No final, a estética individual (o corpo, a pele, o olhar) e a estética coletiva (a nação, o povo, a comunidade) compartilham algo: o desafio de existir com dignidade em meio à falta, o desejo de integração em meio ao real que assusta e a fé mínima que impulsiona a continuar.

Com carinho e amor,
Dr. Diogo Rabelo

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